Aos 40 anos, a paulistana Débora Carvalho é movida pela curiosidade de entender como as engrenagens funcionam. Ela é daquelas que prefere descobrir como resolver do que dizer que não dá, e foi esse incômodo positivo que a fez recalcular a rota profissional. A rotina em casa acompanha esse ritmo: entre o nosso papo e a saída do Mateus, de 5 anos, para o futebol, ela ainda coordena os horários da Sofia, de 10, que é bailarina.
Com dez anos de bagagem na segurança do trabalho, Débora decidiu que era hora de girar a chave. Hoje, prestes a se formar em Gestão Empresarial, ela atua na Cora, uma conexão que começou na prática, enquanto ela prestava serviços para a marca durante seus três anos como Scooteira.
A escolha de ficar perto dos filhos
A segurança do crachá deixou de fazer sentido para a Débora quando o Mateus chegou. Ela já estava no limite de uma área que entregava um combo de preconceito diário e uma rotina que não a reconhecia. “Era luta, todos os dias.”
Mãe solo, com uma filha de 5 anos e um recém-nascido, ela sabia que precisava trabalhar e sabia também que não queria se afastar das crianças. Foi trabalhar numa escola na rua de casa. A proximidade era ótima, mas o salário mínimo não dava conta do recado. “No primeiro mês eu falei: dá para segurar. Mas depois as contas apertam.”
Foi aí que uma amiga, Scooteira das primeiras turmas, contou como as coisas funcionavam por aqui. Débora se interessou, mas teve medo. Já tinha arriscado ao trocar um bom salário pela escola e não se sentia segura para arriscar de novo com duas crianças dependendo dela.
Três da manhã, ao lado do berço
A decisão veio no momento mais difícil daquele ano. Aos 7 meses, o Mateus precisou passar por uma cirurgia de emergência e ficou internado na UTI. Enquanto Débora acompanhava o filho, a chefe mandava mensagens perguntando se ela não tinha com quem deixá-lo e avisando que precisaria abrir a vaga dela.
“Além da tensão de estar com meu filho na UTI, eu ainda tinha que pensar em perder o meu emprego. Foi quando eu lembrei da Scooto e falei: é a minha oportunidade, é agora”, conta, emocionada.
“Eram 3 horas da manhã, os equipamentos da UTI apitando o tempo todo, ele no berço, e eu preenchi o cadastro da Scooto.”
O Mateus teve alta dois dias depois. No dia seguinte, a Scooto ligou.
Um começo no dia do aniversário da Sofia
A primeira vaga da Scooto não batia com a rotina da Débora. Ela ainda dividia o tempo com o emprego na escola e os cuidados com o filho recém-saído do hospital. Em vez de forçar um encaixe que não funcionaria, nossa líder foi prática: entendeu o contexto e guardou o currículo. “Ela falou: eu gostei muito de você, vai aparecer outra oportunidade.”
Dois meses depois, apareceu. A operação era da Cora, e o primeiro dia de trabalho caiu em 25 de dezembro de 2021, aniversário da Sofia. “Eu estava comemorando em dobro.”
O começo exigiu fôlego extra. A Débora equilibrou a jornada CLT de dia com o atendimento na Scooto à noite. Tudo isso com um bebê no colo e uma filha na fase das primeiras letras. A conta fechava na base da organização e da autonomia que ela buscava. “Tinha que trocar fralda, amamentar, dar banho, dar janta, assinar a agenda da escola, e tinha que trabalhar.”
Alguém acreditou nela antes dela mesma
O que Débora mais lembra dessa fase é a forma como foi recebida. Ela fazia o atendimento de suporte e, em pouco tempo, recebeu o convite para a monitoria de qualidade. Recusou três vezes. “Eu falava: gente, eu não vou dar conta. Como vocês acreditam tanto em mim, se nem eu mesma acredito?”
O convite voltou em momentos bem diferentes, e na terceira vez ela aceitou. Passou a monitorar as atendentes da operação e a montar apresentações de treinamento. Há pouco tempo, preparando um treinamento na Cora, encontrou um desses materiais antigos. “Eu falei: gente, que arraso.”
“A gente duvida muito da gente. Mas quando alguém acredita em você, você pensa: então eu preciso ir atrás e dar o meu melhor.”
Com a Scooto, Débora recuperou a renda que tinha antes de deixar a antiga profissão e deu entrada na casa própria. Mais tarde, tomou coragem para sair do emprego com carteira assinada. “Os meus filhos também precisavam de mim. E a Scooto esteve ali presente, não me abandonou.”
“As palavras têm poder”
Numa das conversas individuais com a liderança, Débora disse que gostava tanto da Scooto que só sairia para uma empresa muito melhor. Pouco tempo depois, a própria Cora a convidou para trabalhar diretamente com eles. Ela deixou a Scooto em outubro de 2024 e, na semana seguinte, já estava na nova função, onde está há quase dois anos.
Os três anos na operação explicam a escolha da faculdade. Dentro do cliente, ela passou a enxergar o caminho completo de um problema, da diretoria até chegar ao time terceirizado onde atuava. “A gente só recebia aquela parte, mas tem todo um processo por trás. Eu sou curiosa, quero entender o macro.” Por isso, Gestão Empresarial.
Disciplina e responsabilidade em casa
O trabalho remoto era novidade quando ela começou. “Eu falava: Deus amado, como eu vou trabalhar de casa? A gente tem um milhão de distrações.” Para quem está começando agora, o conselho dela é direto: disciplina e responsabilidade em primeiro lugar.
“A gente acha que tudo bem colocar a roupa para lavar no meio do expediente. Mas você está sendo pago para trabalhar, para produzir.” Ela também rebate a ideia de que quem trabalha de casa passa o dia sem fazer nada. “Não é assim que funciona.”
Acolhimento, em uma palavra
Perguntada sobre o que resume a passagem pela Scooto, Débora não hesita. “É acolhimento. A gente passa por muitas coisas na vida que os outros não sabem. Saber que você pode trabalhar num ambiente onde é acolhida, querida, onde tem oportunidade de fato, é maravilhoso.”
A comparação com o passado ajuda a entender o peso dessa palavra. Ela ainda lembra de uma frase que ouviu de um antigo chefe e que a marcou.
“Eu só contrato mulher porque ela tem responsabilidade com filho. Então ela nunca vai dizer não.”
Hoje, Débora trabalha num lugar que a valoriza e consegue acompanhar de perto o crescimento da Sofia e do Mateus, entre as aulas de balé e os treinos de futebol. Ao longo dos anos, indicou a Scooto para muita gente. “Eu ficava feliz quando alguém me falava: vou fazer uma entrevista. Eu dizia: vai.”